domingo, 14 de junho de 2020
MARCELO ALVES TN Tribuna do Norte, 14/06/2020
Vai o texto da crônica publicada hoje, dia 14 de junho de 2020, no jornal Tribuna do Norte (de Natal/RN):
As novas memórias
O mulato carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é convencionalmente tido como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. É quase uma unanimidade, acredito. E esse enorme prestígio de Machado de Assis se dá tanto cá, entre nós, quanto mundo afora, como se pôde constatar com o relançamento, nos Estados Unidos da América, na semana passada, pela respeitadíssima Penguin Books, do seu romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), com o título, traduzido ao pé da letra, “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas”.
Enorme sucesso. Primeiro, de crítica. Se Harold Bloom (1930-2019), o grande literato recém-falecido, já havia apontado Machado como o “maior escritor negro de todos os tempos”, a prestigiosa revista New Yorker, agora, deu à sua resenha do livro o convidativo título – “Redescobrindo o livro mais espirituoso já escrito”. E, também, de público, já que o livro físico esgotou nas gigantes Amazon e Barnes & Noble em um só dia. Toda essa repercussão vocês podem conferir nos sites de lá (EUA) e de cá, como eu mesmo fiz no da própria Penguin (onde você pode ler um excerto do livro), na Amazon, na Superinteressante, na Veja e por aí vai.
Primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (fundada em 1897), “O Bruxo do Cosme Velho” – epíteto de Machado, tornado célebre pelo nosso genial poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – escreveu em quase todos os gêneros literários. Fez poesia, teatro, crônica, crítica literária, jornalismo e por aí vai, mas foi sobretudo no conto/novela e no romance que ele produziu algumas das obras-primas da literatura brasileira e, posso dizer, universal. A lista é enorme. A dos meus preferidos também. Do conto/novela “O Alienista” (1892) à tríade de romances “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), “Quincas Borba” (1891) e “Dom Casmurro” (1899). Eu considero as “Memórias” o maior dos romances de Machado. “Quincas Borba”, o vice-campeão. Que me perdoem os amantes de “Dom Casmurro”. Questão de tema, talvez. Gosto dos filósofos loucos.
Na verdade, inspirado no “Tristram Shandy” (“The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman”, 1759-1767), de Laurence Sterne (1713-1768), com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado nos presenteou com um romance inovador – experimental, posso dizer –, tido como o marco inicial do realismo (mágico?) na literatura brasileira, até então presa ao romantismo. Que é um ponto de virada, para melhor, na obra do Bruxo, disso ninguém duvida. As ousadias formais – basta lembrar que o narrador é um “defunto autor”, sem compromisso com a cronologia do tempo – e o humor implacável são revolucionários. E, para além dos aspectos formais, o romance também encanta pelo seu conteúdo: pretensa autobiografia, é uma crítica, refinada mas sem concessões, da hipocrisia da sociedade brasileira de então (e de hoje?). Por detrás do humor, revela o pessimismo do autor com tudo que ele enxerga. É um romance filosófico e moral, que combina diversão e profundidade com natural equilíbrio.
Bom, eu ainda não conheço fisicamente essa nova edição de “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas” da Penguin Books. Mas eu tenho uma outra edição, em inglês, do maravilhoso romance. De 1991, editora Vintage. E nela, na contracapa, outro grande escritor, Salman Rushdie (1947-), faz rasgados elogios a Machado e a seu livro: “Se Borges é o escritor que fez Garcia Marquez possível, então não é exagero dizer que Machado é o escritor que fez Borges possível. (…) Ele é uma das obras-primas da literatura brasileira, e esta espirituosa e lúcida tradução é puro prazer de leitura”. Só o título dado em inglês à minha edição, “Epitaph of a Small Winner”, me soa estranho. Brás Cubas é hoje, sem dúvida, um “grande” vencedor.
Por fim, lembro-me bem de quando comprei essa edição, usada, por três libras, naquelas bancas de livros na margem sul do Tâmisa, em Londres. Memórias vivas, graças a Deus.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
As novas memórias
O mulato carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é convencionalmente tido como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. É quase uma unanimidade, acredito. E esse enorme prestígio de Machado de Assis se dá tanto cá, entre nós, quanto mundo afora, como se pôde constatar com o relançamento, nos Estados Unidos da América, na semana passada, pela respeitadíssima Penguin Books, do seu romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), com o título, traduzido ao pé da letra, “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas”.
Enorme sucesso. Primeiro, de crítica. Se Harold Bloom (1930-2019), o grande literato recém-falecido, já havia apontado Machado como o “maior escritor negro de todos os tempos”, a prestigiosa revista New Yorker, agora, deu à sua resenha do livro o convidativo título – “Redescobrindo o livro mais espirituoso já escrito”. E, também, de público, já que o livro físico esgotou nas gigantes Amazon e Barnes & Noble em um só dia. Toda essa repercussão vocês podem conferir nos sites de lá (EUA) e de cá, como eu mesmo fiz no da própria Penguin (onde você pode ler um excerto do livro), na Amazon, na Superinteressante, na Veja e por aí vai.
Primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (fundada em 1897), “O Bruxo do Cosme Velho” – epíteto de Machado, tornado célebre pelo nosso genial poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – escreveu em quase todos os gêneros literários. Fez poesia, teatro, crônica, crítica literária, jornalismo e por aí vai, mas foi sobretudo no conto/novela e no romance que ele produziu algumas das obras-primas da literatura brasileira e, posso dizer, universal. A lista é enorme. A dos meus preferidos também. Do conto/novela “O Alienista” (1892) à tríade de romances “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), “Quincas Borba” (1891) e “Dom Casmurro” (1899). Eu considero as “Memórias” o maior dos romances de Machado. “Quincas Borba”, o vice-campeão. Que me perdoem os amantes de “Dom Casmurro”. Questão de tema, talvez. Gosto dos filósofos loucos.
Na verdade, inspirado no “Tristram Shandy” (“The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman”, 1759-1767), de Laurence Sterne (1713-1768), com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado nos presenteou com um romance inovador – experimental, posso dizer –, tido como o marco inicial do realismo (mágico?) na literatura brasileira, até então presa ao romantismo. Que é um ponto de virada, para melhor, na obra do Bruxo, disso ninguém duvida. As ousadias formais – basta lembrar que o narrador é um “defunto autor”, sem compromisso com a cronologia do tempo – e o humor implacável são revolucionários. E, para além dos aspectos formais, o romance também encanta pelo seu conteúdo: pretensa autobiografia, é uma crítica, refinada mas sem concessões, da hipocrisia da sociedade brasileira de então (e de hoje?). Por detrás do humor, revela o pessimismo do autor com tudo que ele enxerga. É um romance filosófico e moral, que combina diversão e profundidade com natural equilíbrio.
Bom, eu ainda não conheço fisicamente essa nova edição de “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas” da Penguin Books. Mas eu tenho uma outra edição, em inglês, do maravilhoso romance. De 1991, editora Vintage. E nela, na contracapa, outro grande escritor, Salman Rushdie (1947-), faz rasgados elogios a Machado e a seu livro: “Se Borges é o escritor que fez Garcia Marquez possível, então não é exagero dizer que Machado é o escritor que fez Borges possível. (…) Ele é uma das obras-primas da literatura brasileira, e esta espirituosa e lúcida tradução é puro prazer de leitura”. Só o título dado em inglês à minha edição, “Epitaph of a Small Winner”, me soa estranho. Brás Cubas é hoje, sem dúvida, um “grande” vencedor.
Por fim, lembro-me bem de quando comprei essa edição, usada, por três libras, naquelas bancas de livros na margem sul do Tâmisa, em Londres. Memórias vivas, graças a Deus.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
sexta-feira, 12 de junho de 2020
PAIXÃO, AMOR E SOLIDÃO
‘’Por trás
de um grande homem, sempre existe uma grande mulher”, dou graças a Deus por a
mulher que mais me apaixonei nunca me quis e sou mais grato ainda a Deus por
ter crescido muito na minha solidão e essa pessoa que jamais me quis encontrou
certamente um companheiro melhor que eu. É tudo que tenho a dizer sobre o amor
e a ilusão das paixões que nos deixam cegos. Ainda sonho em talvez encontrar
alguém, mas não é mais com chamas num
queimar ardente no meu peito. Aprendi que amor se encontra de modo racional na
nossa mente e no coração, apenas a ilusão
das paixões.
Martins Sampaio- Natal, 12/06/2020
domingo, 7 de junho de 2020
MARCELO ALVES DIAS DE SOUZA (ASPAS)
Vai o texto da crônica publicada hoje, dia 7 de junho de 2020, no jornal Tribuna do Norte (de Natal/RN):
Para onde voltamos
De tão estereotipado e absurdo, o nacional-socialismo – ou nazismo, como ele é mais conhecido – nunca foi amplamente discutido entre nós e muito menos era cogitada a sua existência no caldo da nossa sociedade. Era matéria para historiadores e filósofos especializados. Para a população, era suficiente assistir aos documentários de guerra e aos filmes hollywoodianos, imaginando ser aquilo coisa de outra terra e de outra era, para lá de distantes.
Mas parece que a coisa mudou. Antes doutrina desacreditada, coisa de celerados, com a globalização e a Internet que a todos conecta, hoje vemos chocar de novo o tal “ovo da serpente”. E entre nós, registro.
Olhem com cuidado, por favor. Vocês verão que os ideais do nazismo estão ressurgindo nas alucinações de algumas cabecinhas fracas e, mais perigosamente, em algumas concepções governamentais ao redor da terra (que não é plana), inclusive junto de nós. A ideia de uma nação forte, um patriotismo cafona, a apologia da força militar e do autoritarismo, a depreciação das instituições democráticas, a paranoia e a verborragia (até a violência) contra quem pensa diferente, um pavor histérico do comunismo, uma simbologia mal disfarçada, a manipulação barata da opinião pública via repetição e fake news, entre outras coisas, tudo isso está por aí.
Dou aqui especial destaque ao preconceito racial e à eugenia, ignomínias do nazismo, mas que são também temas de grande interesse atualmente. O preconceito foi uma marca da “filosofia” de Adolf Hitler (1889-1945), que lançou sua fúria contra aqueles que considerava “humanos inferiores”. Os eslavos, supostamente culpados de tomar terras que pertenciam ao povo alemão, padeceram nas mãos do ditador. Os negros ameaçavam a pureza sanguínea europeia através da França. Até os italianos, futuros aliados, mas de sangue deveras misturado, foram objeto do preconceito de Hitler. Os judeus, claro, foram as vítimas de uma das maiores barbaridades da história da humanidade, batizada de Holocausto, numa mistura perversa de preconceito e eugenia. E hoje vemos aflorar, nos EUA e aqui no Brasil, seríssimas questões acerca do preconceito racial (“Vidas negras importam”) e do tratamento dado (na verdade, do desleixo) à atual pandemia, que tem beirado a eugenia dos mais idosos e vulneráveis.
Bom, alguém pode perguntar ou mesmo objetar (se simpatizante, sem saber, de ideias nazistas): mas o nazismo de ontem não teve e o ovo da serpente de hoje não tem, cada qual a seu modo, um certo apoio na população? Hitler foi eleito, fato. E o ovo da serpente chegou ao poder por decisão dos eleitores. Como explicar isso? Como explicar esse apoio a coisas tão abjetas?
Tenho duas respostas até reconfortantes. Ter apoio popular não quer dizer tudo. Desde que o mundo é mundo, ludibriados os eleitores, os votos servem aos interesses de grupos poderosos ou à vontade de um indivíduo, sobretudo se este é um demagogo populista. Em segundo lugar, a escalada nazista ao inferno foi e é feita de forma sutil. Eles ampliam seus poderes pelo uso de expedientes que, às vezes, nos passam desapercebidos: propaganda massiva com o fim de manipular a opinião pública; o uso programado de ritos e tradições para criar uma aura de mito em torno do seu líder; controle governamental centralizado da educação e da cultura; e a criação e utilização de aparatos reservados de informação e segurança. Quem leu “Mein Kampf” (1925), de Hitler, sabe do que estou falando. Depois, já é tarde. A banalidade do mal está instalada. Mas, nestes dois casos, seríamos vítimas das circunstâncias.
Há uma explicação, entretanto, que me preocupa enormemente. Peguemos, apenas como exemplo, a questão do preconceito racial. Ele foi bem-sucedido com os nazistas, ele é bem-sucedido agora, mesmo que ignóbil, ainda que irracional, porque estaria, dizem, enterrado na nossa psiquê. Isso nos mostra algo de muito perigoso na própria natureza humana.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
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Para onde voltamos
De tão estereotipado e absurdo, o nacional-socialismo – ou nazismo, como ele é mais conhecido – nunca foi amplamente discutido entre nós e muito menos era cogitada a sua existência no caldo da nossa sociedade. Era matéria para historiadores e filósofos especializados. Para a população, era suficiente assistir aos documentários de guerra e aos filmes hollywoodianos, imaginando ser aquilo coisa de outra terra e de outra era, para lá de distantes.
Mas parece que a coisa mudou. Antes doutrina desacreditada, coisa de celerados, com a globalização e a Internet que a todos conecta, hoje vemos chocar de novo o tal “ovo da serpente”. E entre nós, registro.
Olhem com cuidado, por favor. Vocês verão que os ideais do nazismo estão ressurgindo nas alucinações de algumas cabecinhas fracas e, mais perigosamente, em algumas concepções governamentais ao redor da terra (que não é plana), inclusive junto de nós. A ideia de uma nação forte, um patriotismo cafona, a apologia da força militar e do autoritarismo, a depreciação das instituições democráticas, a paranoia e a verborragia (até a violência) contra quem pensa diferente, um pavor histérico do comunismo, uma simbologia mal disfarçada, a manipulação barata da opinião pública via repetição e fake news, entre outras coisas, tudo isso está por aí.
Dou aqui especial destaque ao preconceito racial e à eugenia, ignomínias do nazismo, mas que são também temas de grande interesse atualmente. O preconceito foi uma marca da “filosofia” de Adolf Hitler (1889-1945), que lançou sua fúria contra aqueles que considerava “humanos inferiores”. Os eslavos, supostamente culpados de tomar terras que pertenciam ao povo alemão, padeceram nas mãos do ditador. Os negros ameaçavam a pureza sanguínea europeia através da França. Até os italianos, futuros aliados, mas de sangue deveras misturado, foram objeto do preconceito de Hitler. Os judeus, claro, foram as vítimas de uma das maiores barbaridades da história da humanidade, batizada de Holocausto, numa mistura perversa de preconceito e eugenia. E hoje vemos aflorar, nos EUA e aqui no Brasil, seríssimas questões acerca do preconceito racial (“Vidas negras importam”) e do tratamento dado (na verdade, do desleixo) à atual pandemia, que tem beirado a eugenia dos mais idosos e vulneráveis.
Bom, alguém pode perguntar ou mesmo objetar (se simpatizante, sem saber, de ideias nazistas): mas o nazismo de ontem não teve e o ovo da serpente de hoje não tem, cada qual a seu modo, um certo apoio na população? Hitler foi eleito, fato. E o ovo da serpente chegou ao poder por decisão dos eleitores. Como explicar isso? Como explicar esse apoio a coisas tão abjetas?
Tenho duas respostas até reconfortantes. Ter apoio popular não quer dizer tudo. Desde que o mundo é mundo, ludibriados os eleitores, os votos servem aos interesses de grupos poderosos ou à vontade de um indivíduo, sobretudo se este é um demagogo populista. Em segundo lugar, a escalada nazista ao inferno foi e é feita de forma sutil. Eles ampliam seus poderes pelo uso de expedientes que, às vezes, nos passam desapercebidos: propaganda massiva com o fim de manipular a opinião pública; o uso programado de ritos e tradições para criar uma aura de mito em torno do seu líder; controle governamental centralizado da educação e da cultura; e a criação e utilização de aparatos reservados de informação e segurança. Quem leu “Mein Kampf” (1925), de Hitler, sabe do que estou falando. Depois, já é tarde. A banalidade do mal está instalada. Mas, nestes dois casos, seríamos vítimas das circunstâncias.
Há uma explicação, entretanto, que me preocupa enormemente. Peguemos, apenas como exemplo, a questão do preconceito racial. Ele foi bem-sucedido com os nazistas, ele é bem-sucedido agora, mesmo que ignóbil, ainda que irracional, porque estaria, dizem, enterrado na nossa psiquê. Isso nos mostra algo de muito perigoso na própria natureza humana.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
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